O Primo Basílio

O Primo Basílio: episódio doméstico (Classicos Da Literatura Portuguesa) (Portuguese Edition) - 

Eça de Queirós

O meu volume d’O Primo Basílio inclui uma carta dirigida a Eça por seu pai que termina deste modo:

 

“Recomendo-te só que em tudo o que escreveres evites descrições que senhoras não possam ler sem corar.”

 

Muito me ri eu à custa disto! E no fim de contas, por que não haveria eu de me rir? O que faz corar uma “senhora” hoje em dia? Isto aqui é tudo gente que por certo leu O Meu Pipi sem pestanejar. Vai agora vir o Eça fazer surgir rubores?

 

O problema da escrita de Eça – que não é problema a não ser neste caso – é que o estilo empregue nos transporta para as conversas de chá das avós com as amigas, ou dos avôs de charuto erguido com os amigos. É um tom que nos embala na sua familiaridade e que, quando irrompe com descrições de seios e quadris, adultérios à dúzia, e amores impetuosos mas não correspondidos de uma velha beata que Eça nos garante “dera-se toda a um cão” (embora eu espero que não do modo que primeiro me ocorreu...), me deixam, pessoalmente, e para meu embaraço, corada. É como estar a visitar uma tia-avó e esta, entre tiradas sobre o reumático que lhe apanha “as cruzes”, se queixar que o mesmo já não a deixa fazer amor à canzana...

 

Realista? O episódio da tia-avó não, graças a deus, mas a sociedade que Eça retrata sente-se sê-lo de certeza.

 

Magistral, não há outra palavra.